quinta-feira, fevereiro 21, 2019

Matemáticas do Coração


Ele era um matemático da vida. Para si todas as variantes e variáveis tinham de estar equacionadas. Por isso não fazia sentimentos. Dizia não acreditar no amor. Tudo o que pudesse fugir do seu auto-controlo era descartado à partida. Preferia subtrair-se à possibilidade de um coração partido do que à soma de uma probabilidade. Por isso, passava pelas pessoas altivo e arrogante, como se fosse dono do mundo e tivesse descoberto a fórmula da sobrevivência, mas enquanto o fazia esquecia-se que não estava a viver. Entretido no dia-a-dia de sempre não via passar por si a acumulação de dias insignificantes por não ter com que os partilhar. E, embora o soubesse lá no fundo, recusava-se a admitir que estava terrivelmente sozinho, porque simplesmente não deixava ninguém entrar. Tinha-se construído de muros e barreiras contra o mundo e contra os outros, e era tão mais fácil ser uma fortaleza sozinho do que acompanhado. Não podia dar a outra pessoa a fraqueza de o poder atingir. Não se dividia. Por isso mantia um certo grau de distância, que o protegia. Tinha criado uma redoma de segurança para que ninguém entrasse, mas também de onde não conseguia sair. E aquilo que acreditava que o estava a salvar, só o castrava na realidade. Porque a praticalidade das suas reacções só apagava qualquer sentimento à nascença. Não havia qualquer espaço para o impulso, para a paixão. Para amar. Racionalizava as acções e isso impedia-o de sentir. De ser. De pertencer. Não via que insistir em alguém era exaustivo e que era esse o motivo pelo o qual ninguém ficava tempo suficiente para lhe mostrar diferente. A mudança teria sempre de vir de dentro e não de fora. E enquanto ele não o deixasse ninguém seria aquilo que ele realmente precisava. Não sabia que enquanto não permitisse a si próprio sentir a vulnerabilidade de um coração que sente, nunca descobriria o que é realmente ser uno ao partilhar-se. Até lá, faria o mesmo de sempre, tentaria enganar-se um pouco mais.. controlando o resultado de todos os seus passos pré-analisados, esperando que continuasse a resultar como até então.

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