sexta-feira, junho 23, 2017

Buraco Negro


E ela gritava pedia e esbracejava de dentro do poço, precisava de ajuda. Estava cansada de ter sempre de ser ela própria a desenvencilhar-se. Estava farta de se sentir sozinha. Precisava de ser salva. Nem que fosse apenas para equilibrar o prato da balança. Precisava de saber que podia contar com isso, que se não conseguisse que alguém viria em seu auxilio. Mas ele não vinha, nunca chegava. Ele limitava-se a olhar para ela, sem nada fazer, à espera que ela própria saísse. Não lhe estendia a mão ou muito menos lhe dava palavras de encorajamento. E ela, morria a cada palavra que proferia, porque só se acumulavam em si a mágoa a dor e a frustração de quem nunca é ouvido. E ficava pequena, cada vez mais pequena, até ficar minúscula. E aí não havia força ou tamanho ou vontade de sair do buraco. Porque o buraco tornava-se ela, escuro e vazio. O buraco vinha de dela, de dentro para fora. Como se de um buraco negro se tratasse, que tudo consome, que tudo destrói. Mas que só a destruía a ela. E talvez a ele, sem que ele próprio se apercebesse disso. É que a cada passo que não dava, também ele se encolhia. Também ele se auto-destruia.

quinta-feira, junho 01, 2017

Voltar a tentar


Nós, quando nos apaixonamos, apaixonamo-nos sempre pelo potencial do outro. Esperamos sempre o melhor da outra pessoa e é por isso que nos desiludimos. Porque embora alguns até se digam estar prontos para a desilusão, a verdade é que não é por ela que esperam, ou então não embarcariam na viagem que é ter uma relação com alguém. Podemos até saber que pode correr mal, podemos até nos tentar proteger de alguma forma, não nos dando completamente, mas acreditamos sempre que daquela vez vai ser diferente. Faz parte da nossa natureza romântica, mesmo que neguemos tê-la. Temos de acreditar. Porque um dia há-de ser o nosso dia. E tem de haver um nosso dia. Seria triste demais pensar o contrário. Seria até porventura injusto. E é por isso que tentamos. Que erramos, tropeçamos, magoamo-nos… e que acabamos por nos levantar e tentar de novo. Sempre na esperança do que poderá vir, do que poderá ser. E isso torna-nos, a todos, tão extraordinários! Esta capacidade que temos de voltar a querer, de voltar a tentar, de voltar a amar. Mesmo que o façamos um pouco inebriados pelos sonhos e cicatrizes que vamos acumulando pelo caminho. Mas faz parte. A imperfeição também faz parte. Porque é essa mesma imperfeição que nos torna tão únicos.