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quarta-feira, agosto 30, 2017

sábado, novembro 07, 2015

Tu ave, Eu farol

Sim. Eu sei que estou a ser egoísta. Quero sugar-te tudo o que trazes contigo e pouco já tenho para te dar. Quero-te a ti como quem quer a fonte da vida eterna. Sou Ponce de Leão, sou Drácula, sou um cavaleiro procurando o Santo Graal. Quero a tua juventude, a tua beleza, quero o teu corpo e a tua ousadia.

Quero aquela parte tão misteriosa, e no entanto tão reveladora que tentas guardar em ti e que desvendo entre as linhas dos textos que me engancham como um anzol deixando-me à mercê de elementos que não meus.

Eu sou água. Tu és fogo.

Eu sou um velho farol fustigado pelos ventos, ondas e marés com paredes destintadas pelos anos. Tu és a ave que me sobrevoa em círculos diários deixando-me zonzo pela persistência do voo, pela elegância das formas que desenhas nos céus. Pelo desejo de sair. De liberdade. E tu és tão jovem. E na tua juventude eu descubro uma inteligência e uma perspicácia que poucos conseguem obter tão cedo. Porque a vida não dá tudo de uma vez. Não podes ter esse corpo que me alerta os hormônios e essa mente tão madura em simultâneo. Não podes, não deves. Uma coisa de cada vez. Uma coisa ou a outra. A juventude ou a maturidade. O corpo de ninfa ou a ponderação.

E é verdade que a maturidade se alcança cedo. Mas não tão cedo. É um mito que ela se ganha pela vida. Ganhamo-la a um terço. Depois andamos em roda de nós próprios, fazendo loopings dos acertos e das asneiras que cometemos e recometemos pela vida. Tal e qual um cão a correr atrás da sua cauda.

E para pararmos de andar aos círculos temos de encontrar um rumo. Uma meta. Uma mulher.
São raras as que tomamos como nossas. São raras as que cobiçamos assim.

Uma folha quase em branco e que contudo parece ter resistência suficiente para que nela caiba tudo. Tudo o que lhe queremos escrever. Uma história, uma saga. Um poema, uma fábula.

Eu sou um escritor. Não posso escrever sobre folhas já escritas nem consigo concentrar-me em páginas que não estejam imaculadas.
Porque eu não sou imaculado. Pelo contrário carrego um lastro de memórias e esquecimentos, de gostos e de desgostos, de paixões e compaixões, de impulsos e retraimentos, de recordações e arrependimentos, de olhos verdes, castanho e negros, de corpos esguios e voluptuosos, de camas, de carros, de cidades e de pinhais, de cartas e de mensagens, de telefonemas durante a noite e encontros durante o dia, de lágrimas e risos, de zangas e de pazes.

Trago um mundo em mim.
E trazer um mundo dentro de nós é como trazer uma caixa de Pandora pronta a espalhar o mal, não pelo planeta mas por um mundo com o nome de quem nos unimos.

Porque em mim há uma réstia de esperança de fazer viver a vida a alguém mas há também a semente para a desilusão. Há risos e lágrimas sim. Há aventura, adrenalina, loucura e descobrimento. Há sims! Mas também há complexos intrincados multiplicados e emaranhados que podem enredar como os fios de uma aranha.

Se Estar comigo pode ser uma montanha russa, Ser comigo é um salto para o abismo esperando sair vivo dessa decisão. É uma aventura? Sim. Mas não é uma aventura começar uma qualquer relação?

És ainda uma folha em branco por onde eu posso escrever.
O pouco que portas não passa ainda de pequenas glosas que mais tarde poderás utilizar no texto principal. Por ora não passarão de notas à margem, anotações de quem espera ainda escrever o grande romance da sua vida.

Eu poderei ser mais uma dessas notas.
Ou não.

Agarra-me ou voa para longe.
Serás então ave eu farol. Tu vento e eu pedra. Tu maré que recua e eu areia que fica.

Paulo Caiado
A Uma Vida de Ti

quarta-feira, outubro 14, 2015

Dress to Impress xD

Ele - Há dress code?
Ela - O dress code é vai vestido. Lol.
Ele - Tinhas medo que não fosse?
Ela - Nunca se sabe...
Ele - Confesso que comigo é um receio justificado. Mas eu consigo ser um homem decente. Às vezes. Poucas vezes. Está bem, eu vou vestido. Presumo que tu também? No shock value?
Ela - Ok. Está combinado então. Vamos os dois de vestido.

terça-feira, setembro 15, 2015

O Rapaz do Presente

Ele corria desenfreadamente pela rua, de calções. Tudo se conjugava para o desastre. Bastava uma pedra da calçada mal colocada e... ali estava ela. Mesmo na esquina. O pé de apoio falha, a gravidade impiedosa actua e o rapaz de mais ou menos 10 anos cai desamparadamente no passeio. Foi mais o aparato do que o dano, um joelho esfolado e as duas palmas das mãos vermelhas do impacto. Tinha herdado os reflexos da mãe, felizmente. Enquanto se levanta e avalia os danos, responde a uma velhota que o conhecia garantindo-lhe que estava tudo bem. "Cuidado, filho. E atenção à estrada, aqui na Elias Garcia o trânsito vem de cima, da esquerda. Hum... Vinhas a olhar para a padaria, aposto... Com bolos na cabeça e uma distracção e está o serviço feito". Sorriu. Apenas sorriu para a senhora, com a delicadeza que o caracterizava fruto da educação e muito amor que tinha em casa, amor de ambos. Do pai, da mãe e dos pais um pelo outro, amor que transbordava e inundava o lar que tomava por isso esse mesmo nome, um lar. E não apenas uma casa. Ele sorria muito, libertava assim a alegria extrema de viver com a serenidade de saber que existia. Por vontade. Não por acidente, mas por muita vontade. Sorria muito, porque sabia porque estava ali, porque pertencia ali por direito, à rua e à vida. Era dono do seu tempo, do seu presente, estava no tempo certo por uma razão de existir. Os seus pais tinham lutado muito por ele, pela sua existência. Porque para ele existir os pais tiveram de se encontrar primeiro, tiveram de correr contra os tempos, de se encontrar, de se achar, lutar contra o próprio tempo para saber se o outro iria estar no sitio certo quando o primeiro lá chegasse anos depois. Lutaram muito para ter a certeza de que aquela procura era real, de que o achado existia e de que no final tinham o prémio de um encontro. Ele lembrava-se desta história, desta rua. Elias Garcia. Onde o seu pai em conversa com amigos pedira pela primeira vez em pensamento namoro à sua mãe, que haveria de conhecer com 10 anos de diferença. Ali ele reconheceu a sua própria existência. E sorriu. Um sorriso de confiança, de certeza. A incerteza do desencontro dos pais baralhou-se com a certeza das suas existências mútuas e resultou numa felicidade confiante de 10 anos. Sorriu de novo, antes de arrancar mais uma vez a correr.

MB

segunda-feira, setembro 14, 2015

A mulher que vivia no futuro

Os amigos riam alto naquela esquina da Av. dos Combatentes com a Elias Garcia. O último cigarro depois das cervejas e antes de se despedirem e se separarem indo cada um para a sua casa prolongou-se para uma conversa séria. Todos tinham reparado na serena tristeza de um deles, que se tinha tornado crónica. Porquê, estar no café a rir com os outros, sempre afável e amigo do seu amigo, partilhando das alegrias e sucessos dos outros mas nunca alegre pelos seus próprios sucessos? Quando os tinha, raramente compartilhava com os amigos. Não por achar que estes eram pouco merecedores, mas porque não os encarava como sucessos. Estava incompleto, dizia ele. "Não sou eu todo agora, estou um pouco noutro lado qualquer". Lá estava ele a falar de gajas: "calma, quando menos esperares elas aparecem, o que não falta aí são gajas"
Talvez, mas o que completa alguém não é tão aleatório. Se tenho agora, em 1994, vinte anos, a minha divisão de alma pode ter 10 anos ainda, noutro canto deste mundo. Ou deste país, espero eu.
"E até lá? Sabes lá tu se isso existe, isso da alma gémea?"
"Se não existe, eu espero à mesma. Ficar incompleto, pode-se ficar para sempre, mesmo se acompanhado. Basta estar acompanhado pela pessoa errada." "Sabes reconhecê-la, se a vires?"
"Como não reconhecer aquilo que o universo atravessa no teu caminho? É uma força incontornável. O problema é o tempo, quando, quando? O meu medo é que esteja noutro plano, universalmente paralelo a mim, em que só a vou encontrar com vida feita, vida construída para mim, embora não POR mim. Vida feita de remendo, para colmatar faltas. Imaginem vocês que a encontro, mais tarde, desiludida, porque o seu lugar era comigo neste tempo, e passou por várias pessoas no tempo dela, também à minha procura, como duas pessoas numa comédia de portas. Dois corredores paralelos onde ambos andam para a frente e para trás, garantindo que viram em cada recanto, esquecendo-se que o universo colocou outro corredor lá atrás." "E ela?"
"Ela é linda. Não me pertence, pois ela já é a minha dona. Não a tenho, porque ela já me teve logo à nascença como prenda universal, mesmo não sendo eu grande coisa, ela é assim dona de dois destinos. O dela e o meu."
"E a diferença de tempos?"
"Não importa. Por isso é que vocês próprios me têm aqui, amigo, leal, embora pela metade. Porque a outra metade já lá está, na cabeça dela, tornando-a aventureira, exploradora, de uma quimera que apenas o seu coração vai poder encontrar, quebrando barreiras de espaço e tempo: eu. Na verdade, nem sei bem se me despeça de vocês. Porque já parti há algum tempo."

MB em 1994. MC em 2015.

MB